Traumas
transgeracionais
O trauma transgeracional ou trauma intergeracional, acontece quando o sofrimento emocional, físico ou social vivenciado por uma geração é passado para as gerações seguintes, muitas vezes sem que elas saibam como ou por quê. Essa transmissão pode ocorrer por meio de comportamentos, crenças, silêncios, expressões físicas e até mesmo alterações biológicas.
Como isso acontece?
● Comportamentos e comunicação inconsciente: famílias marcadas por traumas podem transmitir, de geração em geração, padrões disfuncionais como, reações exageradas ao estresse, dificuldade em demonstrar afeto ou comportamentos de hipervigilância.
● Epigenética: o ambiente pode modificar a expressão dos nossos genes através do “epigenoma” (toda a informação hereditária de um organismo que está codificada no DNA). Estudos mostram que traumas graves, como os vividos por sobreviventes do Holocausto, deixaram marcas epigenéticas que impactaram os descendentes. Além destas marcas, historicamente, estudos mostram efeitos psicológicos nos filhos de sobreviventes, como medo constante da escassez, mesmo em ambientes seguros, pesadelos frequentes, instabilidade emocional ou dificuldade comportamental.
● Psicanálise e memoria não simbolizada: de acordo com estudos psicanalíticos, traumas mantidos em segredo, sem serem elaborados simbolicamente, podem ser transmitidos como uma “angústia latente” nas gerações seguintes.
Quando traumas atravessam gerações, não afetam apenas indivíduos ou famílias, mas reverberam na comunidade e isto pode gerar maior vulnerabilidade emocional e acometer muitas pessoas ao mesmo tempo com depressão, ansiedade e isolamento coletivo.
Como romper o ciclo?
Pais e cuidadores que conhecem a trajetória familiar, inclusive suas dores e silêncios, estão melhor preparados para lidar com seus próprios medos e os de seus filhos. A história, quando contada de forma acolhedora, pode transformar padrões repetitivos em conhecimento compartilhado.
Um terapeuta familiar, psicoterapeuta ou psicanalista pode ajudar a elaborar ou simbolizar traumas semiconscientes, oferecendo alívio emocional e reconfigurando padrões.
Práticas simples como, rotinas seguras, conversas sensíveis e autocuidado, ajudam a construir a sensação de segurança. Grupos de apoio também são ferramentas eficazes.
Embora não nos termos estritamente biológicos ou epigenéticos, o Dr Gabor Maté aborda o tema Trauma transgeracional com foco nas feridas emocionais e padrões familiares que são transmitidos de geração em geração por meio de relações e da vivência afetiva.
O Dr Gabor compartilha que muitos dos nossos comportamentos e sintomas como, TDAH, vícios, doenças crônicas, podem estar enraizadas em traumas não resolvidos das gerações anteriores. Traumas que não tiveram espaço para ser processados, mas que continuam afetando inconscientemente as famílias e os filhos.
“Trauma não é o que acontece com você; é o que acontece dentro de você como resultado do que acontece com você.” – Dr Gabor Maté
Esta passagem enfatiza que não é apenas o evento traumático que importa, mas sua ressonância interna, na forma como ele ficou na mente e no corpo. E que esta ressonância pode manifestar nas próximas gerações.
Em seu livro “Mentes Dispersas” (cap 12: Trauma geracional, sistemas familiares e cura), Dr Gabor explica que o TDAH e outros padrões de comportamento, muitas vezes refletem climas emocionais traídos e passados através das gerações, incluindo traumas sutis, emoções não elaboradas e expectativas familiares que se tornam parte do legado efetivo.
Ele descreve como o estresse da gestante, mesmo sem violência explicita, como depressão ou ansiedade, pode afetar profundamente o neurodesenvolvimento e gerar efeitos duradouros na criança; efeitos que, por sua vez, podem ser transmitidos por meio de padrões emocionais familiares.
O Dr Gabor também destaca que traumas históricos e culturais, como o Holocausto, violência colonial, genocídio e racismo, são frequentemente transmitidos de forma emocional e cultural. Traumas coletivos, dessa forma, reverberam em diferentes gerações, ainda que não sejam explicitamente discutidos ou reconhecidos.

