O que é
Trauma na infância

Quando ouvimos a palavra “trauma”, muitas vezes pensamos em tragédias como guerras, atentados ou desastres naturais.
Mas a verdade é que os traumas mais comuns e prejudiciais para as crianças acontecem dentro de casa – longe dos olhos do público. 
São abusos, negligência, violência doméstica e outras formas de sofrimento contínuo.

Impactos do Trauma

como o trauma afeta o cérebro

Sinais de alerta

principais sinais de alerta

Dicas práticas

dicas práticas aos cuidadores

Trauma na infância, ou Trauma infantil, nas ciências humanas (como a psicologia, a psicanálise, a sociologia e a pedagogia), é compreendido como uma experiência emocionalmente dolorosa ou perturbadora vivida por uma criança, que ultrapassa sua capacidade de compreensão, enfrentamento e elaboração psíquica no momento em que ocorre. Ou ainda, uma resposta emocional a um evento que ameaça ou causa dano – físico e/ou emocional, real ou percebido à criança.
Quando os fatores desencadeantes são repetitivos e acontecem na fase de desenvolvimento, o trauma pode afetar todo o funcionamento da criança: seu corpo, emoções, memória, capacidade de aprender e até a forma como ela enxerga o mundo.
Esses traumas podem ser causados por eventos como: violência (física, sexual ou emocional), abandono, negligência, perdas significativas, desastres, doenças graves, separações abruptas, entre outros. O impacto depende não só do evento em si, mas também da rede de apoio, da resiliência da criança e do contexto cultural e familiar.
O trauma na infância pode afetar profundamente o desenvolvimento emocional, cognitivo e social da criança. Diversos autores possuem definições sobre o trauma na infância, mas todos concordam com o fato de que experiências traumáticas precoces podem deixar marcas duradouras no psiquismo, influenciando a forma como o indivíduo se relaciona consigo mesmo e com os outros ao longo da vida.

O que dizem
os Especialistas

Vários especialistas nas áreas da psicologia, psicanálise, psiquiatria e neurociência dedicaram seus estudos à compreensão de como o trauma na infância afeta o desenvolvimento emocional e cerebral. Aqui estão alguns dos principais nomes e o que eles contribuem para esse campo:

Gabor Maté – Médico e psicoterapeuta

Dr. Gabor nasceu em Budapeste durante a Segunda Guerra Mundial. Poucos meses após seu nascimento, foi separado da mãe para protegê-lo da perseguição nazista. Embora essa separação tivesse a intenção de proteger, o impacto emocional foi enorme e deixou marcas profundas. O Dr Gabor diz: “Minha vida começou com um grito de bebê que não foi respondido. A ausência da minha mãe naquele momento inicial gravou em mim uma sensação profunda de abandono e não pertencimento.” Ele diz que:
● Trauma não é apenas um evento em si, mas sim as consequências do evento. O que acontece dentro da pessoa quando esses eventos não são processados e acolhidos adequadamente, especialmente dentro da criança que viveu experiencias difíceis.
● Trauma é, acima de tudo, a perda da conexão consigo mesmo; ou seja, quando a criança, não acolhida emocionalmente, começa a se desconectar das próprias emoções também das suas necessidades.

Bessel Van der Kolk – Psiquiatra e pesquisador em trauma

Autor do livro O Corpo Guarda as Marcas, Van der Kolk é uma das maiores referências mundiais sobre trauma. Ele afirma que o trauma infantil não é apenas uma lembrança ruim do passado, mas uma experiência que permanece “gravada” no corpo e no cérebro da criança.
● Segundo ele, quando uma criança vive em constante estado de ameaça — como em casos de violência doméstica, abuso ou abandono — o cérebro entra em modo de sobrevivência, ativando sistemas de alerta que permanecem ligados mesmo quando o perigo já passou.
● Isso causa alterações em áreas como a amígdala (resposta ao medo), o hipocampo (memória) e o córtex pré-frontal (raciocínio e controle emocional).

Van der Kolk enfatiza que essas alterações podem levar a sintomas como hipervigilância, irritabilidade, problemas de sono, dificuldade de concentração e até dores físicas — mesmo anos depois do trauma.

Bruce Perry – Psiquiatra infantil e neurocientista

Perry é conhecido por explicar o trauma através do conceito de “neurodesenvolvimento”, ou seja, como as experiências moldam o cérebro em crescimento.
● Ele afirma que as experiências traumáticas precoces podem interromper o desenvolvimento saudável de estruturas cerebrais importantes para o equilíbrio emocional e o aprendizado.
● Crianças traumatizadas tendem a viver em estado de hipervigilância, como se estivessem sempre esperando que algo ruim aconteça, o que prejudica o desempenho escolar, o sono e as relações sociais.
● Segundo Perry, “o que parece ser mau comportamento muitas vezes é, na verdade, um cérebro em sofrimento”.

Donald Winnicott – Psicanalista infantil

Winnicott desenvolveu conceitos centrais para a compreensão da saúde emocional na infância, como o de “ambiente suficientemente bom” e “falso self”.
● Ele afirma que a criança precisa de um ambiente estável, previsível e afetuoso para desenvolver seu “self verdadeiro” — ou seja, sua identidade genuína, espontânea e criativa.
● Quando o ambiente é caótico, negligente ou violento, a criança não se sente segura para ser quem ela realmente é. Ela então cria um “falso self”, uma espécie de máscara emocional que serve para agradar os adultos ou evitar conflitos, mas que a desconecta de seus sentimentos reais.
● Isso pode gerar, na vida adulta, sensações de vazio, confusão sobre quem se é, dificuldade de tomar decisões e de manter relações íntimas e autênticas.

Louis Cozolino – Psicólogo e neurocientista

Cozolino estuda a relação entre os vínculos afetivos e o cérebro social. Ele mostra que as conexões afetivas seguras nos primeiros anos de vida são fundamentais para o equilíbrio emocional e o funcionamento saudável do cérebro.
● Em contextos de trauma, negligência ou violência, essas conexões se rompem ou não se formam adequadamente, o que prejudica o desenvolvimento de empatia, autorregulação e autoestima.
● Isso pode levar a comportamentos de defesa, retraimento, explosões emocionais ou dificuldade de confiar nos outros.

Tipos de traumas
e Fatores de Influência

Tipos de Traumas
Segundo o médico e psicoterapeuta Dr. Gabor Maté, há 2 tipos de trauma na infância. Eles se distinguem para ajudar a entender como diferentes experiências impactam a criança.
● Trauma com “T” maiúsculo: são os traumas mais evidentes, como abuso físico, sexual, abandono severo e violência extrema. Esses traumas geralmente são reconhecidos pela sociedade e pela medicina como causas diretas de sofrimento.
● Trauma com “t” minúsculo: são traumas mais sutis, mas que causam danos profundos e duradouros. Incluem, pais emocionalmente indisponíveis ou ausentes, falta de afeto e acolhimento, críticas constantes e cobranças excessivas, ambiente familiar frio ou repressivo, repressão da expressão emocional da criança.

O trauma com “t” minúsculo é importante porque é, muitas vezes, invisível, mas é extremamente comum e pode deixar marcas que atravessam a vida adulta. Muitas pessoas não percebem que suas dificuldades emocionais têm origem nessas experiências cotidianas e normais.

Quem viveu estes traumas na infância poderá, na vida adulta, apresentar:
● baixa autoestima;
● dificuldade em estabelecer limites;
● medo de rejeição;
● problemas em relacionamentos íntimos;
● sensação de vazio ou desconexão emocional.

Um grande estudo realizado nos Estados Unidos com mais de 17 mil pessoas, corrobora as afirmações acima. Chamado de Estudo ACE (Adverse Childhood Experiences), conduzido pelo Dr. Vince Felitti na Kaiser Permanente e pelo Dr. Bob Anda no CDC revelou que adultos que sofreram abusos na infância apresentam riscos mais altos de desenvolver doenças graves como doenças cardíacas, câncer, diabetes, depressão, ansiedade e tendências suicidas. Além disso, esses adultos são mais propensos ao uso de substâncias, tabagismo e comportamentos autodestrutivos.
*conheça mais sobre esse estudo no artigo do blog Estudo ACEs – Experiências Adversas na Infância

Fatores e efeitos na infância
Conforme um artigo publicado pelo Child Welfare Information Gateway alguns fatores podem influenciar o impacto dos eventos traumáticos na infância. Além disso, na tabela abaixo vemos como suas consequências poderão ser observadas diretamente em 4 dimensões da criança: corpo, cérebro/pensamento, emoções/sentimentos e comportamento.

Fatores
● Idade Crianças mais novas são mais vulneráveis. Mesmo bebês e crianças pequenas, que são pequenos demais para falar sobre o que aconteceu, retêm “memórias sensoriais” duradouras de eventos traumáticos que podem afetar seu bem-estar na vida adulta.
● Frequência Vivenciar o mesmo tipo de evento traumático várias vezes, ou vários tipos de eventos traumáticos, é mais prejudicial do que um único evento.
● Relacionamentos Crianças com relacionamentos positivos com cuidadores saudáveis têm maior probabilidade de se recuperar.
● Habilidades de enfrentamento Inteligência, saúde física e autoestima ajudam as crianças a lidar com a situação.
● Percepção O grau de perigo que a criança acredita estar correndo, ou a intensidade do medo que ela sente no momento, é um fator significativo.
● Sensibilidade Cada criança é diferente: algumas são naturalmente mais sensíveis que outras.

O trauma pode afetar as crianças nas seguintes dimensões:

Consequências
Multissistêmicas

As consequências do trauma infantil são amplas e podem se manifestar em diferentes áreas da vida da pessoa — emocional, cognitiva, comportamental, relacional e até física. Essas consequências variam conforme a natureza, a duração e a intensidade do trauma, bem como o ambiente em que a criança está inserida. Aqui estão algumas das principais consequências:

No desenvolvimento emocional e psicológico
● Ansiedade e depressão: emoções intensas de medo, tristeza ou insegurança podem persistir até a vida adulta.
● Baixa autoestima: a criança pode crescer sentindo-se inadequada, culpada ou sem valor.
● Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT): revivendo constantemente o trauma, pesadelos, estado de alerta 100% do tempo.
● Dissociação: desconexão entre pensamentos, sentimentos e ações, como mecanismo de defesa.
● Desregulação emocional: dificuldade para lidar com frustrações, raiva ou medo.

Na estrutura psíquica (visão psicanalítica)
● Segundo Freud, traumas infantis mal elaborados podem se fixar no inconsciente e influenciar comportamentos futuros, inclusive na forma de sintomas neuróticos.
● Para Winnicott, a falta de um ambiente suficientemente bom pode levar a falhas no desenvolvimento do verdadeiro self. O Self é a experiência de ser, de sentir-se real, vivo, espontâneo e em continuidade no tempo. Surge a partir de vivências afetivas com o ambiente, especialmente nos primeiros meses e anos de vida.
● O psicanalista Sándor Ferenczi observou que, quando uma criança sofre abuso por parte de um adulto (especialmente abuso emocional ou sexual), acontece algo muito grave no mundo interno da criança: ela fica confusa sobre o que sentiu, o que viveu e o que significou aquilo. Ferenczi chamou isso de “confusão de línguas”, ou seja, uma mistura entre o que a criança queria dizer e o que o adulto entendeu (ou usou para satisfazer seus próprios desejos). A criança quer carinho, mas o adulto responde com abuso.

No comportamento
● Agressividade ou retraimento: reações opostas, mas comuns, diante de experiências traumáticas.
● Dificuldades escolares: queda no rendimento, falta de concentração, evasão.
● Comportamentos de risco: uso de drogas, sexualidade precoce, autolesões.
● Problemas com a autoridade: dificuldade de seguir regras ou se submeter a limites.

Nas relações sociais
● Dificuldade de confiar nos outros: medo de abandono ou traição.
● Dependência emocional ou isolamento social.
● Relações conflituosas ou abusivas na vida adulta, reproduzindo padrões aprendidos na infância.

Na saúde física
Estudos da psicologia e da medicina psicossomática mostram que traumas infantis aumentam o risco de:

● Doenças autoimunes
● Problemas cardíacos
● Distúrbios do sono
● Obesidade e diabetes
● Dor crônica sem causa orgânica clara

É importante lembrar que nem toda criança impactada por um trauma desenvolverá todas essas consequências. Fatores como apoio emocional, intervenção terapêutica precoce, ambiente seguro e vínculos afetivos estáveis podem atuar como proteção e favorecer a resiliência.

Entenda