Violência Doméstica
na infância
A violência doméstica na infância envolve qualquer tipo de abuso físico, verbal, emocional, sexual ou negligência, praticado dentro do ambiente familiar.
Quando crianças vivem nesse contexto — seja como alvo direto ou como testemunhas da violência entre cuidadores — elas sofrem traumas complexos, muitas vezes não reconhecidos ou tratados a tempo.
Quando a criança é vítima direta da violência:
- Física (agressões, empurrões, tapas, queimaduras)
- Psicológica (humilhações, ameaças, gritos)
- Negligência (abandono afetivo, falta de cuidado básico)
- Sexual (abuso por membros da família)
Os efeitos emocionais e psíquicos, em geral, são:
- Medo crônico, ansiedade, retraimento
- Dificuldade de confiar em adultos
- Reações de hiperalerta (estar sempre “em guarda”)
- Baixa autoestima e autodesvalorização
- Sentimento de culpa (“sou o motivo das brigas”)
- Desenvolvimento de transtornos como TEPT, depressão, ansiedade ou TDAH
Quando a criança é testemunha da violência no lar:
Mesmo sem ser agredida fisicamente, a criança que assiste a brigas, gritos, ameaças, agressões entre pais ou familiares próximos está exposta a um ambiente emocionalmente inseguro.
Por que isso é traumático?
● A criança vê o amor associado ao medo e à dor
● Sente-se impotente e responsável por aquilo que acontece
● Vive um ambiente instável, o que afeta sua sensação de segurança no mundo
As possíveis consequências são:
● Ansiedade intensa e constante
● Dificuldade de concentração e aprendizado
● Transtornos de comportamento (agressividade ou apatia)
● Problemas de sono e alimentação
● Transtornos do apego (insegurança em todas as relações)
● Maior risco de repetição do ciclo de violência na vida adulta
O que dizem os estudos sobre os impactos da violência doméstica na infância?
Diversos estudos nas áreas da saúde mental, psicologia e neurociência demonstram que viver em um ambiente familiar violento ou caótico na infância pode ter efeitos profundos e duradouros no corpo e na mente da criança, afetando até a saúde física na vida adulta.
O psiquiatra Bessel Van Der Kolk, referência mundial no estudo do trauma, explica que o cérebro da criança que vive sob constante ameaça — como em lares com brigas frequentes, gritos, agressões físicas ou emocionais — entra em um estado de alerta permanente. Isso altera o funcionamento de áreas do cérebro ligadas à memória, ao controle das emoções e à percepção de segurança, como a amígdala (responsável pela resposta ao medo) e o hipocampo (ligado à memória). Essas alterações podem fazer com que a criança desenvolva reações desproporcionais ao medo, dificuldade de concentração, impulsividade, insônia e outros sintomas que muitas vezes são confundidos com problemas de comportamento.
O psicanalista Donald Winnicott traz outra contribuição essencial ao afirmar que para uma criança crescer emocionalmente saudável, ela precisa de um ambiente “suficientemente bom” — ou seja, um lar previsível, estável, com afeto, proteção e presença cuidadosa dos adultos. Quando essa base falha, e a criança vive sob estresse constante, sem poder expressar livremente seus sentimentos, ela pode criar o que Winnicott chamou de “falso self”: um tipo de personalidade adaptada, em que a criança finge estar bem, obedece e se comporta de forma aceitável apenas para sobreviver emocionalmente, escondendo seus verdadeiros sentimentos e vontades. Embora pareça “forte” ou “madura demais”, essa criança está, na verdade, desconectada de si mesma, agindo como um reflexo das exigências do ambiente, e não de seu mundo interno. Isso pode levar, na vida adulta, a uma sensação de vazio, dificuldades de relacionamento e baixa autoestima.
Violência indireta NÃO é menos grave
Muitas vezes a sociedade desconsidera o sofrimento de crianças que “não apanharam”, mas viram, ouviram ou sentiram a violência no ambiente familiar. A psicologia atual reconhece que a exposição à violência doméstica é, por si só, uma forma de abuso emocional.
Caminhos para o cuidado e a proteção
● Identificação precoce: Professores, pediatras e vizinhos podem ser aliados na escuta e sinalização de possíveis sinais de trauma.
● Ambiente seguro: Afastar a criança da violência é o primeiro passo terapêutico.
● Trabalho com a família (quando possível): Intervenção sistêmica, orientação parental, grupos de apoio.
● Rede de proteção: Envolver escolas, conselhos tutelares, serviços de assistência social e saúde mental.
● Psicoterapia especializada
Concluindo, a violência doméstica na infância — seja como vítima direta ou como testemunha da violência entre os cuidadores — é uma experiência potencialmente traumática, que afeta não só o desenvolvimento emocional, mas também o corpo, o cérebro e a forma como a pessoa se relaciona com o mundo por toda a vida. A boa notícia é que, com apoio especializado e relações cuidadosas, a cura é possível.

