Negligência, abandono
e privações
Existe um conceito importante na teoria do desenvolvimento infantil, conhecido em inglês como “serve and return” (em tradução livre, “servir e retornar”) que é o processo dinâmico de troca entre a criança e o adulto, que contribui para o desenvolvimento do cérebro e das habilidades emocionais, sociais e cognitivas da criança.
As interações típicas “servir e retornar” que ocorrem entre crianças pequenas e seus adultos atenciosos afetam a formação de conexões neurais e circuitos no cérebro em desenvolvimento. Se as respostas dos adultos forem pouco confiáveis, inadequadas ou simplesmente ausentes, os circuitos do cérebro em desenvolvimento podem ser interrompidos e a aprendizagem prejudicada.
Por isso os relacionamentos responsivos são essenciais e esperados das crianças; e sua ausência constitui uma séria ameaça ao seu desenvolvimento e bem-estar. A negligência crônica está associada a uma gama de danos tão ou até mais prejudicial que o abuso ativo, mas recebe menos atenção nas políticas e práticas.
A ciência nos diz que crianças pequenas que experimentam responsividade e sensibilidade limitadas por parte de seus cuidadores podem sofrer uma série de consequências adversas para a saúde física e mental com grandes prejuízos ao seu desenvolvimento. Essas consequências podem incluir atrasos no crescimento cognitivo e físico, comprometimentos nas funções executivas e nas habilidades de autorregulação, além de distúrbios na resposta do corpo ao estresse.
Quando uma ameaça é detectada, os sistemas biológicos de resposta ao estresse são ativados, e a ativação excessiva desses sistemas pode ter um efeito tóxico nos circuitos cerebrais em desenvolvimento. Esse impacto multifacetado no cérebro em desenvolvimento destaca porque a negligência é tão prejudicial durante os primeiros anos de vida e porque intervenções precoces eficazes produzem retornos elevados e duradouros.
Estudos realizados com crianças em diversos contextos mostram que a negligência severa, o abandono e as privações podem:
- Interromper a maneira como o cérebro das crianças se desenvolve e processa informações, aumentando assim o risco de distúrbios de atenção, emocionais, cognitivos e comportamentais.
- Alterar o desenvolvimento dos sistemas de resposta biológica ao estresse, levando a um risco maior desofrer mais tarde com ansiedade, depressão, problemascardiovasculares e outros problemas crônicos de saúde.
- Está associada a um risco significativo de vivenciar dificuldades emocionais e interpessoais, incluindo altos níveis de negatividade, baixo controle de impulsos e transtornos de personalidade, bem como baixos níveis de entusiasmo, confiança e autoafirmação.
- Está associada a um risco significativo de apresentar dificuldades de aprendizagem e baixo desempenho acadêmico, incluindo déficits na função executiva e regulação da atenção, baixo QI, baixa capacidade de leitura e baixa probabilidade de concluir o ensino médio.
Apresentamos abaixo uma tabela com as características, efeitos e ações referente aos cuidados sensíveis às crianças:
Considerações Finais
As consequências negativas da privação e da negligência podem ser revertidas ou atenuadas por meio de intervenções adequadas e oportunas, mas simplesmente retirar uma criança pequena de um ambiente que não oferece respostas suficientemente adequadas não garante resultados positivos, por isso crianças que vivenciam privações e negligências severas frequentemente requerem intervenção terapêutica e cuidados de alto suporte para mitigar os efeitos adversos e viabilizar sua recuperação.

