Dicas aos pais
e cuidadores
Crianças que vivenciaram eventos traumáticos precisam se sentir seguras e amadas. Ainda que os adultos cuidadores, sejam eles pais ou responsáveis desejem proporcionar um ambiente acolhedor para suas crianças, muitas vezes não compreendem os efeitos do trauma. Sendo assim, podem não conseguir interpretar corretamente as atitudes e comportamentos daquela criança e acabar se sentindo frustrados ou ressentidos.
Suas tentativas de lidar com comportamentos problemáticos podem ser ineficazes ou, em alguns casos, até prejudiciais. Ao aumentar sua compreensão do trauma, os adultos cuidadores poderão ajudar a apoiar a recuperação da criança, à medida que melhora seu relacionamento com ela e com a família como um todo.
Quando crianças vivenciam traumas, particularmente múltiplos eventos traumáticos por um longo período, seus corpos, cérebros e sistemas nervosos se adaptam em um esforço para protegê-las. Isso pode resultar em comportamentos como aumento da agressividade, desconfiança ou desobediência a adultos, ou até mesmo dissociação (sensação de estar desconectado da realidade). Quando estão em perigo, esses comportamentos podem ser importantes para sua sobrevivência. No entanto, uma vez que as crianças são transferidas para um ambiente mais seguro, seus cérebros e corpos podem não reconhecer que o perigo passou.
Esses comportamentos, ou hábitos de proteção, se fortaleceram com o uso frequente (assim como um músculo usado regularmente fica maior e mais forte). Leva tempo e treinamento para ajudar esses “músculos da sobrevivência” a aprender que não são necessários em sua nova situação e que podem relaxar.
Pode ser útil lembrar que o comportamento problemático do seu filho ou da criança sob seus cuidados pode ser uma resposta aprendida ao estresse — pode até ser o que esse comportamento assegurou a sobrevivência da criança em uma situação muito insegura. Levará tempo e paciência para que o corpo e o cérebro da criança aprendam a responder de maneiras mais apropriadas ao seu ambiente atual e seguro.
Por onde começar?
- Observe com empatia e sem julgamentos
- Ofereça escuta e segurança
- Procure ajuda especializada (psicólogo infantil, psiquiatra ou equipe multidisciplinar)
- Envolva escola, serviços sociais e familiares, se necessário
- Evite pressionar a criança a “contar” — o trauma precisa de tempo e cuidado para ser processado
Treine seu olhar
Identifique os gatilhos do trauma.
● Algo que você esteja fazendo ou dizendo, ou algo inofensivo em casa ou na escola, pode estar desencadeando o trauma sem que nenhum adulto perceba. É importante observar padrões de comportamento e reações que não parecem “adequados” à situação. O que distrai a criança, o que a deixa ansiosa ou a leva a birras e/ou ataques de fúria? Ajude-a a evitar situações que desencadeiem memórias traumáticas, pelo menos até que a recuperação ocorra.
Esteja disponível emocional e fisicamente:
● Algumas crianças vivenciando traumas agem de maneiras que mantêm os adultos à distância (quer queiram ou não). Ofereça atenção, conforto e incentivo de maneiras que a criança aceite. Por exemplo, crianças mais novas podem querer abraços ou carinhos extras; para crianças mais velhas, isso pode significar apenas passar mais tempo juntos em família. Seja paciente se as crianças parecerem carentes ou reticentes.
Responda, não reaja.
● Suas reações podem desencadear efeitos contrários em criança ou jovem que já está se sentindo sobrecarregado. (Algumas crianças se sentem desconfortáveis até mesmo quando são observadas diretamente por muito tempo.) Quando perceber que a criança está chateada, faça o que puder para manter a calma: fale mais baixo, reconheça os sentimentos dele e seja honesto e tranquilizador.
Evite castigos físicos sempre, em qualquer situação.
● Isso pode agravar ainda mais o estresse ou a sensação de pânico da criança abusada. Os pais/ cuidadores precisam estabelecer limites e expectativas razoáveis e consistentes, e elogiar comportamentos desejáveis.
Não leve o comportamento para o lado pessoal.
● Permita que a criança sinta seus sentimentos sem julgamentos. Ajude-a a encontrar palavras e outras formas aceitáveis de expressar sentimentos e elogie-as quando forem usadas.
Ouça.
● Não evite tópicos difíceis ou conversas desconfortáveis (mas não force as crianças a falarem antes que elas estejam prontas). Explique às crianças que é normal ter muitos sentimentos após uma experiência traumática. Leve as reações delas a sério, corrija qualquer informação incorreta sobre o evento traumático e assegure-as de que o que aconteceu não foi culpa delas.
Ajude a criança a aprender a relaxar.
● Incentive-a a praticar a respiração lenta, ouvir música relaxante ou dizer coisas positivas, por exemplo “Estou seguro agora.”.
Seja consistente e previsível.
● Crie uma rotina regular para refeições, brincadeiras e hora de dormir. Prepare a criança com antecedência para mudanças ou novas experiências.
Seja paciente.
● Cada pessoa se recupera de um trauma de forma diferente, e a confiança não se constrói da noite para o dia. Respeitar o processo de recuperação de cada criança é importante.
Permita algum controle.
● Escolhas razoáveis e adequadas à idade estimulam a sensação de que a criança ou o jovem têm controle sobre a própria vida.
Incentive a autoestima.
● Experiências positivas podem ajudar as crianças a se recuperarem de traumas e aumentar a resiliência. Exemplos incluem dominar uma nova habilidade; sentir um senso de pertencimento a uma comunidade, grupo ou causa; definir e atingir metas; e servir aos outros.
Procure ajuda profissional e Intervenções adequadas.
Educar uma criança ou adolescente que passou por um trauma pode ser difícil. Às vezes, as famílias se sentem isoladas, como se ninguém mais entendesse o que estão passando.
● Isso pode causar tensão não apenas no seu relacionamento com a criança/adolescente em questão, mas também com outros membros da família (incluindo seu cônjuge ou parceiro). Por isso é importante procurar ajuda de profissionais especializados, preferencialmente com abordagem interdisciplinar.
Gatilhos
Profissionais capacitados
Intervenções possíveis
Para ajudar os pais/cuidadores a selecionarem os profissionais que atuarão junto à criança que sofreram traumas, apresentamos um breve roteiro de perguntas a serem feitas aos profissionais antes do início do tratamento:
● Você conhece pesquisas sobre os efeitos do trauma em crianças?
● Você pode me contar sobre sua experiência trabalhando com crianças e adolescentes que sofreram traumas?
● Como você determina se os sintomas de uma criança podem ser causados por trauma?
● Como o histórico de trauma de uma criança influencia sua abordagem de tratamento?
Conteúdo adaptado de Child Welfare Information Gateway
Cristina Peixoto é psicóloga e consultora internacional nos assuntos de acolhimento, adoção e parentalidade informada sobre trauma.

