Imagine uma criança crescendo em um ambiente cheio de dificuldades: brigas constantes entre os pais, falta de comida, gritos, violência ou ausência de alguém que a cuide.
Agora, imagine essa mesma criança chegando à vida adulta. Você acha que essas experiências ficaram para trás? O Estudo ACEs mostrou que não. “ACEs” é a sigla em inglês para Adverse Childhood Experiences, ou Experiências Adversas na Infância.
Esse foi o nome dado a um dos maiores e mais importantes estudos já feitos sobre infância, saúde e comportamento humano.
Como o estudo começou
Na década de 1990 nos Estados Unidos, dois médicos, o Dr. Vincent Felitti e o Dr. Robert Anda, em parceria com a Kaiser Permanente e o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), iniciaram uma pesquisa com mais de 17 mil adultos.
Essas pessoas eram, em sua maioria, de classe média, tinham emprego estável e plano de saúde. Durante exames médicos de rotina, responderam a questionários confidenciais sobre sua infância.
A pergunta central era: “Você viveu alguma dessas situações até os 18 anos?”.
As situações listadas foram chamadas de 10 principais ACEs e divididas em três grupos:
Grupo 1: Abuso
1 – Físico (apanhar de forma violenta).
2 – Emocional (xingamentos, humilhações, ameaças).
3 – Sexual (contato ou tentativa de contato sexual inadequado).
Grupo 2: Negligência
4 – Física (faltar comida, roupas, cuidados médicos).
5 – Emocional (não receber afeto, sentir-se invisível ou sem apoio).
Grupo 3: Disfunções familiares
6 – Ter pais com depressão, transtornos mentais ou que tentaram suicídio.
7 – Pais ou responsáveis dependentes de álcool ou drogas.
8 – Violência doméstica (um dos pais agredindo o outro).
9 – Separação ou divórcio dos pais.
10 – Um familiar preso.
Para cada resposta positiva, a pessoa recebia um ponto. O total era chamado de pontuação ACE.
O que os resultados mostraram
Os pesquisadores perceberam duas coisas impressionantes:
1. Os ACEs são muito comuns.
– Cerca de 67% das pessoas tinham pelo menos uma experiência adversa.
– Uma em cada oito pessoas (12,6%) tinha quatro ou mais.
2. Quanto maior a pontuação, maior o risco de adoecer.
– Pessoas com 4 ACEs ou mais tinham 12 vezes mais chance de tentar suicídio.
– 7 vezes mais chance de se tornarem alcoólatras.
– 10 vezes mais chance de usar drogas injetáveis.
– 2,5 vezes mais risco de desenvolver doenças pulmonares crônicas ou hepatite.
– 3 vezes mais risco de morrer de câncer de pulmão.
– Expectativa de vida até 20 anos menor em casos mais graves.
Ou seja: o que acontece na infância não fica na infância.
Por que isso acontece?
Nosso corpo tem um sistema de defesa chamado “luta ou fuga”. Ele é ativado quando estamos em perigo. Imagine que você encontra um cachorro bravo na rua: seu coração dispara, seus músculos se preparam para correr ou lutar. Depois que o perigo passa, o corpo volta ao normal.
Mas, quando a criança vive em ambiente de violência, negligência ou medo constante, é como se o cachorro bravo estivesse na sala todos os dias. O corpo nunca consegue relaxar. O estresse se torna tóxico, afetando:
– O cérebro (prejudicando a memória, o aprendizado e o controle das emoções).
– O sistema imunológico (aumentando risco de doenças).
– O sistema hormonal (alterando crescimento, metabolismo e até o DNA).
Isso explica por que adultos com alto número de ACEs não apenas adotam mais comportamentos de risco (fumar, beber, usar drogas), mas também têm mais doenças físicas mesmo quando não apresentam esses comportamentos.
Exemplos práticos
– Uma criança que cresce vendo a mãe ser agredida pode aprender a viver em alerta constante, sem confiar em ninguém. Na escola, terá dificuldade de concentração, poderá reagir com agressividade ou isolamento, e ser rotulada como “aluno problema”.
– Um adolescente que sofre negligência emocional pode buscar alívio em comida, álcool ou drogas, porque não aprendeu formas saudáveis de lidar com a dor.
– Um adulto que passou por várias ACEs pode adoecer mais cedo, ter dificuldade em manter relacionamentos ou enfrentar problemas no trabalho.
O impacto na sociedade
Os efeitos dos ACEs não atingem apenas a pessoa que sofreu. Eles trazem custos para todos. Um estudo publicado na revista científica The Lancet estimou que os gastos anuais atribuídos às ACEs chegam a:
– 748 bilhões de dólares na América do Norte.
– 581 bilhões de dólares na Europa.
Isso inclui custos com hospitais, tratamentos, medicamentos, segurança pública e perda de produtividade no trabalho. Agora, imagine o quanto poderíamos economizar — e principalmente, quantas vidas poderiam ser diferentes — se preveníssemos parte desses traumas. Os cientistas calculam que reduzir em apenas 10% a ocorrência de ACEs poderia gerar uma economia anual de mais de 100 bilhões de dólares.
Existe saída?
Sim! E essa talvez seja a mensagem mais importante do estudo: adversidade não é destino.
Mesmo pessoas com pontuação alta em ACEs podem ter uma vida saudável e feliz, desde que encontrem fatores de proteção. Alguns exemplos:
- Relacionamentos de confiança: basta um adulto presente, que ofereça carinho e apoio, para fazer uma diferença enorme.
- Ambientes seguros: escolas e serviços de saúde que entendem os efeitos do trauma conseguem acolher melhor.
- Tratamentos adequados: acompanhamento psicológico, cuidados médicos e práticas integrativas podem ajudar a reduzir o impacto do estresse tóxico.
- Resiliência: capacidade de se recuperar diante das dificuldades, que pode ser fortalecida com vínculos afetivos, autoestima e apoio da comunidade.
O que aprendemos com tudo isso?
O Estudo ACEs nos mostra que cuidar das crianças não é apenas uma questão de afeto ou educação, mas também de saúde pública. O que acontece nos primeiros anos de vida pode influenciar diretamente não só o futuro daquela pessoa, mas de toda a sociedade.
Se quisermos adultos mais saudáveis, produtivos e felizes, precisamos começar pela infância — garantindo segurança, amor, respeito e oportunidades.
Em resumo:
– ACEs são experiências difíceis na infância, como abuso, negligência ou problemas na família.
– Quanto mais ACEs uma pessoa vive, maior o risco de doenças físicas e mentais na vida adulta.
– O estresse tóxico é o mecanismo que explica esse impacto.
– O problema é comum: a maioria das pessoas teve pelo menos uma ACE.
– A boa notícia: resiliência, apoio e políticas públicas podem mudar essa história.
A infância deixa marcas profundas, mas também pode ser o espaço onde plantamos a esperança. Afinal, cuidar das crianças é cuidar do futuro de todos nós.


