ContextualizaçãoExperiência na Região Metropolitana de Detroit, EUA
Em 2016, os Estados Unidos chegaram a ter mais de 437 mil crianças e adolescentes em acolhimento, gerando uma crise no sistema de proteção. 

por Cristina Peixoto*

Segundo o National Center on Abuse and Child Welfare, (NCSACW), entre 2000 e 2016 houve um aumento significativo de acolhimentos devido ao uso abusivo de drogas por parte dos responsáveis legais. Este aumento, somado à escassez de recursos financeiros, resultou na redução de capacidade dos estados de acolher crianças e adolescentes adequadamente.

Dados e relatórios de monitoramento federal avaliando o desempenho dos estados na execução de serviços de proteção de crianças, adolescentes e famílias revelaram falhas sistêmicas a nível nacional que estavam resultando em danos significativos para crianças, suas famílias e comunidades.

Constatou-se que adultos jovens que passaram pelo acolhimento apresentavam maior incidência de experiências negativas do que seus pares sem experiências de acolhimento; maior envolvimento com o sistema penal; maior incidência de problemas físicos e psiquiátricos, baixo desempenho educacional; e maiores dificuldades financeiras, de moradia e relacionais.

Em 2018, o congresso americano aprovou o decreto conhecido como Family First Prevention Services Act (FFPSA). O decreto refletiu décadas de pesquisas que reconheceram que a retirada da criança da família, mesmo quando absolutamente necessária, traz riscos significantes de ser uma experiência profundamente traumática para crianças e famílias.

O FFPSA foi um importante marco na mudança de paradigma no que diz à proteção holística de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. O realinhamento de políticas públicas com ênfase  no trabalho preventivo tem incentivado iniciativas que visam fortalecer as famílias e reduzir a incidência de maus tratos e “retraumatismo”.

Abordagem da Rede de Proteção informada sobre o trauma
A proteção da criança e adolescente através da lente do trauma é uma abordagem holística que reconhece o impacto do trauma em vários aspectos e fases da vida do indivíduo, e que visa minimizar riscos de “retraumatismo”.

Crianças e adolescentes adotados através do serviço de acolhimento, tipicamente trazem histórico de maus tratos, adversidades, instabilidade e cuidados inconsistentes.

Considerando que experiências traumáticas afetam como a criança percebe e responde ao mundo a sua volta, o fortalecimento das redes de proteção dentro de uma perspectiva informada pelo trauma é essencial para fechar “buracos” nas redes, e avançar em práticas de cuidados efetivos.

No contexto de proteção de crianças e famílias nos EUA
Redes de Proteção são definidas como os vários sistemas que interagem com crianças e jovens em situação de vulnerabilidade, tais como: assistência social, educação, saúde física/mental, conselhos tutelares (ou equivalentes), policia/segurança pública, poder judiciário, entidades religiosas e grupos da sociedade civil.

 A capacitação das redes sobre o impacto do trauma nas emoções, comportamento e nas relações interpessoais desempenha um papel vital quando problemas, muitas vezes relacionados ou exacerbados pelo trauma, se transformam em crises.

Atuando como catalizadores de mudanças de atitudes e crenças socioculturais, os parceiros das redes têm implantado uma variedade de estratégias alinhadas à prevenção do “retraumatismo”.

Princípios que guiam a abordagem informada pelo trauma
A complexidade dos efeitos do trauma reforça a importância de uma abordagem que considera não apenas a estrutura e capacidade da rede de proteger, mas também aspectos socioculturais como as principais alavancas de mudança que promovem a redução de riscos de maus tratos e “retraumatismos”.

Os princípios da abordagem têm como objetivo orientar as redes no desempenho de suas funções, e são centrados em cinco temas:

Não causa danos

Garante que a resposta da rede a comportamentos relacionados com trauma não resulte em mais traumas, ou que coloquem a criança em uma nova situação de risco;

Pergunta

Reconhece a existência de estresses e/ou experiencias traumáticas por trás de comportamentos desafiadores, e pergunta “ o  que aconteceu com a criança”, ao invés de “o que esta errado com a criança?”

Reconhece

A magnitude e impacto do trauma a longo prazo são reconhecidos através do acesso a serviços e suportes especializados, necessários em fases diferentes da criança;

Integra

A informação sobre trauma está integrada na estrutura organizacional das redes, e nas iniciativas, serviços e programas;

Enfatiza

Promove uma cultura que valoriza prevenção de maus tratos e enfatiza capacitação contínua das redes para a proteção efetiva.

Fatores de proteção na infância e adolescência
Fatores de proteção são variáveis individuais, familiares, sociais e culturais presentes que beneficiam o desenvolvimento de crianças e atuam para reduzir riscos de maus tratos e revitimização. A identificação e compreensão dos fatores relacionados a proteção propiciam o realinhamento de políticas públicas, melhoria nos serviços e programas, e promovem a implementação de intervenções especificas que ajudam famílias com histórico de trauma lidar com situações difíceis.

A capacidade das redes de identificar, construir e fortalecer os fatores de proteção é um aspecto fundamental para potencializar a eficácia dos serviços.

De acordo com o modelo conceitual americano Families Protective Factors Framework, a construção de fatores de proteção inclui estratégias focadas nos seguintes pilares chaves:

Conexões e relacionamentos sociais

Família tem vários níveis de apoio social e relacionamentos estáveis, positivos com as pessoas a seu redor

Resiliência parental

Os pais conseguem manejar os estresses do dia a dia, e respondem à criança de maneira adequada

Competência social e emocional da criança

Características da criança e habilidade dela de interagir positivamente com outros e comunicar suas emoções efetivamente

Meio ambiente seguro

Acesso à moradia segura e estável, sentimento de segurança na família, escola e vizinhança

Acesso a recursos Suportes concretos quando necessário, cuidados médicos e serviços de saúde mental; creches, escolas, áreas de recreação e transporte

As Redes de Proteção têm um longo caminho a percorrer no fortalecimento da criança e família com cuidados informados sobre trauma. Mas a construção e sustentação efetiva de fatores de proteção é possivel através do esforço contínuo de mobilização intersistêmica, colaboração, parcerias estratégicas, capacitação, e transformação da cultura da Rede de Proteção.

*Cristina Peixoto é psicóloga e recebeu o título de especialista em Psicologia e Psiquiatria da Infância e Adolescência pela Faculdade de Medicina, da Universidade Federal de Minas Gerais. Cristina começou sua carreira profissional no Brasil, trabalhando com crianças e famílias, antes de se mudar para os Estados Unidos em 1989. Exerceu funções de liderança em serviços de proteção da criança e adolescente, incluindo prevenção à violência, acolhimento familiar, adoção e pós-adoção. Em parcerias estratégicas com universidades americanas e especialistas, liderou vários projetos nos Estados Unidos de pesquisas de capacitação. Em 2022, Cristina aposentou do cargo de Presidente e CEO da Spaulding for Children e atualmente tem trabalhado como voluntária, facilitando acesso de profissionais no Brasil e Portugal a recursos técnicos e metodologias baseadas em evidências.

Deixe um comentário