Toda criança carrega dentro de si um desejo profundo: ser vista, acolhida e amada. Mas quando a vida se inicia em meio ao abandono, à violência ou à negligência, esse desejo se mistura ao medo e à desconfiança. uma criança crescendo em um ambiente cheio de dificuldades: brigas constantes entre os pais, falta de comida, gritos, violência ou ausência de alguém que a cuide.
por Sara Vargas*
Nas famílias que acolhem filhos por adoção e vítimas de trauma, compreender o impacto das experiências anteriores é essencial para transformar dor em pertencimento — e o vínculo em cura.
Comportamento é linguagem
É comum que crianças vindas de contextos de vulnerabilidade apresentem comportamentos difíceis: birras, agressividade, impulsividade, desrespeito, dificuldades escolares. À primeira vista, parecem atos de desobediência. Mas, na verdade, cada atitude carrega uma mensagem. O comportamento é a linguagem de quem ainda não consegue expressar em palavras o que sente — medo, insegurança, necessidade de controle.
O cérebro de uma criança que viveu estresse tóxico e imprevisível permanece em estado de alerta. Quando ocupado em se proteger, ele não está disponível para aprender, brincar ou se relacionar. O medo bloqueia o raciocínio lógico, a regulação emocional e a capacidade de confiar. Por isso, antes de qualquer correção, é preciso oferecer segurança.
A possível mudança não é passiva
A mudança começa quando o adulto decide ver além do comportamento. Podemos interpretar a desobediência como um ato proposital ou como um comportamento de sobrevivência. No primeiro caso, criamos regras mais rígidas e entramos em uma espiral de frustração. No segundo, reconhecemos o medo e abrimos espaço para uma espiral ascendente de confiança.
Essa mudança de olhar não é passiva — é profundamente ativa. Exige presença, sensibilidade e paciência. É o adulto que ajuda a criança a nomear o medo, regula as emoções junto com ela e lhe oferece previsibilidade e amor consistente. Feridas causadas por relacionamentos só podem ser curadas por meio de novos relacionamentos.
A criança que foi ferida no vínculo precisa de um vínculo para se reconstruir. Isso significa que o papel do cuidador vai muito além de suprir necessidades físicas; envolve criar um ambiente de pertencimento, onde a conexão é a principal ferramenta de correção e desenvolvimento.
Que toda criança e adolescente cresça em uma família que nutre, cuida e potencializa.
O toque, o olhar, o brincar e o tempo compartilhado comunicam à criança algo que ela talvez nunca tenha ouvido: “Você é digno de amor, mesmo quando erra.” É nesse espaço seguro que ela aprende a confiar novamente — e a se permitir amar.
Famílias adotivas são, muitas vezes, laboratórios vivos de amor intencional. Elas nos ensinam que o vínculo é mais importante do que o comportamento, e que toda criança tem o potencial de se desenvolver integralmente quando é nutrida por uma presença segura.
Cuidar de uma criança que vem de um contexto de dor é, em si, um ato de fé. É acreditar que o amor paciente e constante é capaz de reorganizar o que o trauma desestruturou. É oferecer à criança o que ela mais precisa — não perfeição, mas presença.
Sara Vargas é graduada em Direito pela Universidade Federal de Uberlândia, pós-graduada em Terapia Familiar Sistêmica Construtivista e Psicodramática pela PUC, Personal, positive e executive Coach, co-fundadora, presidente e diretora técnica da OSC Pontes de Amor, especialista em Intervenções Relacionais Baseadas na Confiança (TBRI) pela Texas Christian University. É ex-presidente da Associação Nacional de Grupos de Apoio à Adoção. É também embaixadora da América Latina no movimento World Without Orphans (WWO), facilitadora do WWO Brasil e coordenadora do Orphan Sunday no Brasil. É escritora, palestrante e formadora em treinamentos voltados à Rede Protetiva da Infância e Juventude.


