A brincadeira é uma linguagem universal da infância. Para crianças que sofreram trauma, ela não é apenas um passatempo — é um mecanismo de regulação emocional, reconstrução da segurança e reorganização do psiquismo.

FUNDAMENTOS NEUROCIENTÍFICOS

Integração cérebro-corpo

  • O trauma pode deixar o cérebro em estado de alerta constante, com hiperatividade da amígdala e prejuízo no funcionamento do córtex pré-frontal (região do pensamento lógico e tomada de decisão).
  • A brincadeira ativa áreas relacionadas à curiosidade, criatividade e cognição social, reduz a atividade de estresse (cortisol) e aumenta dopamina e oxitocina, neurotransmissores ligados ao bem-estar e vínculo.

Plasticidade neural

  • A neurociência mostra que o cérebro infantil é altamente plástico. Experiências lúdicas com elementos de segurança, surpresa e alegria ajudam a reescrever padrões neurais associados ao medo ou à dissociação.

Sistema nervoso autônomo

  • O brincar espontâneo estimula o sistema nervoso parassimpático, promovendo estados de relaxamento e regulação emocional após experiências de ameaça ou abandono.

Fonte: Porges, S. (2011) Polyvagal Theory; Siegel, D. (2012). O cérebro da criança

PSICOLOGIA E PSICANÁLISE

Winnicott e o espaço potencial

  • Donald Winnicott destacou a importância do “espaço potencial”. Um campo entre a realidade interna e externa onde o brincar ocorre.
  • Através do brincar, a criança processa vivências internas difíceis, dando forma simbólica ao indizível, integrando sentimentos confusos.

Melanie Klein e a brincadeira como linguagem simbólica

  • Klein observou que crianças usam o brincar como os adultos usam a fala: como forma de elaborar angústias, perdas e agressividade.
  • Brincadeiras repetitivas ou temáticas (ex: salvar bonecos, fugir de monstros) podem ser tentativas inconscientes de reencenar e dominar experiências traumáticas.

Psicodrama infantil e expressão não-verbal

  • Terapias como o psicodrama infantil utilizam o brincar encenado (com objetos, fantoches ou teatro) como meio terapêutico direto, ajudando a criança a dar significado e encontrar solução simbólica ao trauma.

FORMAS DE BRINCAR QUE PROMOVEM CURA

  • Brincadeira simbólica (faz de conta): Externaliza conflitos internos, organiza narrativas traumáticas.
  • Brincadeiras sensoriais (areia, massinha, água): Ajudam a regular o sistema nervoso e trabalhar experiências corporais do trauma.
  • Jogos com regras (tabuleiro, cartas): Promovem previsibilidade, autocontrole e confiança nas relações.
  • Brincadeiras em grupo: Reconstroem vínculos sociais, fortalecem autoestima e empatia.
  • Expressão corporal (dança, movimento, yoga lúdico): Integra corpo e mente, acessando traumas que não têm linguagem verbal.

Ou seja, a brincadeira, quando oferecida com presença, escuta e continuidade, é uma ferramenta essencial, muitas vezes, mais acessível e transformadora no tratamento de traumas infantis, pois, em resumo, ela pode:

  • Regular o sistema nervoso,
  • Dar voz ao que não pode ser dito,
  • Fortalecer vínculos afetivos,
  • Criar espaço seguro para elaborar, simbolizar e se reconstruir.

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